Pessoas Feridas Ferem

Quase todos conhecem aquele provérbio “pessoas feridas ferem”. O sujeito ferido que não pode simbolizar sua dor, tende a deslocar para os outros, fazendo-os sentir o que nem ele mesmo suporta. Algumas pessoas podem estar reproduzindo os mesmos sofrimentos, como das suas relações passadas, seja um pai, uma mãe ou um vínculo afetivo. A pessoa partilha sua dor, ferindo o outro. A dor muitas vezes pode ser também o ponto de partida da consciência, pois o sofrimento é inevitável, mas o ressentimento não.E uma pessoa ferida pode transformar sua dor em vingança, convertendo em culpa e punição sobre a si e aos outros.

Há quem transforme a dor em poesia, transmutando em verbo na carne. Se a ferida pode ser uma dor que nunca cicatrizou, uma pessoa ferida também pode ser alguém que ajuda os outros a curarem a si mesmos. Pois a dor pode ser uma iniciação, uma purificação e uma expiação dos problemas, para a consciência transformá-la em sabedoria. Ferir e ser ferido, a briga eterna entre dois mundos é recusar que cada um tem sentimentos, necessidades e anseios. E que uma ferida é uma memória. E como bem disse Niezstche: “abençoados os que esquecem, pois aproveitam até mesmo os equívocos”.

Uma ferida pode nem sempre ser tão visível, mas ela pode estar influenciando um modo de ser e de estar no mundo, como também uma maneira de se relacionar. Ela cria fechamentos e embotamentos afetivos. Não querer se ferir mais é o limite dentro de nós mesmos. De conhecer os padrões que nos machucam. Até aqui repetimos padrões inconscientes, que nos fazem dizer “não quero me ferir mais”.

Não quero mais viver alienado de si mesmo. É o retorno ao centro. É abrir mão das máscaras e estar além dos personagens que não entram em cena. Se dentro de mim tenho todos os sonhos do mundo, quero resgatar apenas aquilo que me pertence.

E abrir mão de automatismos, rituais não vivos e que não possam ser escritos. É viver com sua consciência. Escrever é dar luz ao caos.